cinema fora dos leoes,
sexta. 27/5
auditorio soror mariana
sexta. 27/5
auditorio soror mariana
THE SHINING / 1980, Stanley Kubrick
O filme:
O Novo Mundo só assim era entendido por quem chegou em último lugar. Antes dos navegantes europeus atracarem nas 'virgens' praias americanas e 'fundarem' uma nação, esse território já era morada de povos índios. A história americana é uma narrativa construída pelos navegantes que chegaram em último lugar e silenciaram os povos nativos que habitavam esse solo.
The Shining (1977, o livro e 1980, o filme) alerta para esse apagamento. Stephen King recria o Overlook Hotel, uma luxuosa estância de ski erguida sobre um antigo cemitério índio. O nome e a história do hotel metaforizam a formação histórica do país, a assombração do passado e o recreio/deslize dos ocidentais sobre os esqueletos dos índios nativos, mas sobretudo, a presença da memória e dos significados que insistem a ficar ancorados aos lugares.
O ciclo Um Olhar a Oriente / A Oriente do Olhar:
Já designado 'Um olhar a Oriente', está longe de querer, ou poder, ser intuito deste ciclo usar a lente do cinema como telescópio do lugar remoto ou como endoscópio do 'Outro', seja, o olho que olha, o nosso ou o do próprio. O mais que poderemos fazer é recordar aspectos 'a oriente' - mas também a sul, e também a ocidente, é aliás por aí exactamente que começamos, por Paris demasiado a ocidente dos seus 'orientais' subúrbios -, num tempo de todos que é menos de rosa-dos-ventos do que de desnorte e de desorientação (ainda um dia me hão-de explicar a diferença...).
Tomaremos privilegiadamente como objectos de consideração aqueles que se situam 'como a mulher indiana': filmes na periferia da periferia - por exemplo, recuando às raízes da actualidade num filme como o 'Gare Central' (do Cairo), de Youssef Chahine (mais um Nouvelle Vague fundador...), onde o trânsito do tempo nesse país da 'Primavera Árabe', de 1958 à actualidade, é oblíquo e só indirectamente nos permite obter um vislumbre sobre o Egipto que seja, precisamente agora, pertinente.
Mas também remeteremos para 'o oriente que sonha', p. ex. os grandes épicos magistrais do Kung Fu dos anos 70 - ocasião para puxarmos da artilharia pesada da linha Edward Saïd acerca dos estereótipos ideológicos do 'orientalismo'...
Peça central que quereremos chamar à discussão, quer nos seja possível projectá-lo, quer não - e que só em concomitância com muitas outras de diferentes quadrantes e enfoques pode chegar a esboçar uma constelação mínima de questões em torno do vasto acontecimento intercultural que, na era pós-colonial, reverte a sua direcção - será o filme de Abderrahmane Sissako Tymbuktu, que vem desde esse continente silenciado (ainda recentemente na febre epidémica do 'Je suis Charlie' enquanto massacres de milhares decorrem na Nigéria e massacres de milhões acabaram de decorrer nas 'Primeira e Segunda Guerras do Congo', sem uma palavra 'branca') altera radicalmente as coordenadas quase obscenamente eurocêntricas segundo as quais nos reportamos 'ao oriente' - agora, a sul - e aos 'outros' - que, agora, são também os outros dos outros e, na verdade, também nós mesmos.
Valia a pena projectar, em sessão tripla, o referido Timbuktu, o paródico Little Big Man (Arthur Penn, 1970) e um de entre muitos exemplos de títulos que fazem da representação dos índios, na ideologia do Western dos anos 40-50, o perfeito equivalente dos assassinos que reencenam, décadas mais tarde, com deleite narcísico, the(ir) act of killing. Porque, quando se obtém, não apenas uma perspectiva sobre as coisas, mas sucessivas perspectivas sobre as perspectivas, é quando o raios da agulha da bússola começa talvez a querer acertar com a maldita geografia de que se andava à procura.
Porque, de facto, a terra não é plana, mas redonda, e, por isso, "West is West and East is East" e não podem senão encontrar-se.
Oh, they did meet, they did meet - nas grandes pradarias centrais de Touro Sentado, mesmo ali ao lado do Nascimento de uma Nação (...) que trocava um genocídio por um apartheid; retomando-se nos Westerns infames dos 40's e dos 50's, e ainda hoje, no folclore rememorativamente obnubilante das 'reservas nativas'. (Para não se pensar que 'os americanos' têm o exclusivo da chacina integral, cf o recente O botão de Nácar, de Patrício Guzmán. Mas não é preciso ver cinema, basta ver o mapa do continente: encontra-se totalmente ocupado por países - para lá levados pelos europeus -, pois pelo que é que haviam de o estar?...., é a coisa mais natural do mundo, basta olhar para este).
Colombo tinha razão, e encontrou literalmente os Índios, esses extremo-orientais imigrados milénios antes, pelos estreitos setentrionais, da Ásia para o continente interposto. Na Terra de Magalhães, preço a pagar pela de Copérnico, o problema do orientalismo é biface, e indissociável da conquista do Espaço, iniciada simultaneamente pela pintura do Quattrocento, que racionaliza mediante a perspectiva o domínio da natureza (recentemente conquistada a Deus e à Idade Média) pelo Sujeito; e pela expansão marítima europeia, que irracionaliza o domínio dos outros sujeitos por aquela mesma perspectiva ocidental.
O CINEMA -FORA- DOS LEÕES: Perfil da nossa programação
Ela organiza-se em torno de quatro eixos:
(I) O cinema português em primeira pessoa - apresentado pelos próprios realizadores e realizadoras (sessão mensal)
(II) Exploração sistemática da multidimensionalidade técnica do cinema como medium dos seus conteúdos (rubrica permanente);
(III) Carta branca às escolhas dos convidados: críticos, cineclubistas, académicos… (sessão bimestral);
(IV) Ciclos temáticos pontuais - e de ponta (rubrica semestral).
Características:
- Apresentação, comentário e debate alargado de todos os filmes.
- Folha de Sala em todas as sessões (ficha técnica e caderno de ensaios interpretativos).
- Leitura e conceptualização do cinema na rememoração da sua história integral (e das suas geografias) e no horizonte da crítica cinematográfica, dos Film Studies, da Filosofia do Cinema e… da pura cinefilia (a louca da casa).
- Site (‘en construcción’).
- Carta branca ao espectador: entrada livre, contribuição graciosa à saída para o nosso projeccionista, o Sr. António.
Finalidades:
- Integrar-se na actividade cinéfila de grande qualidade e variadas orientações da cidade de Évora (‘os cinco santuários’).
- Projectar a compreensão do cinema para além do cinema - como forma e caminho de um pensamento de tudo.
- Contribuir para a constituição de uma comunidade consistente de espectadores que vejam, pensem e digam cinema (isto é, o mundo).
- Encontrar o coração de cada filme (por onde ele nos atinge desde dentro), que é também o nosso.
- Animar e mobilizar o marasmo estrutural de um público-alvo em fase aguda da sua inexistência, e exortar as duas comunidades universitárias (a docente e a discente), bem como a bacia cultural eborense lato sensu, a não temerem a magnitude do ecrã na noite escura. Não é um espelho. Nem a ‘utilidade social’ da ‘articulação da Universidade com a dinâmica cultural’, permitindo assim passar-se a observar (in vivo, ou sob a forma de hino) a plasticidade dos saberes.
- Aspirar à caridade municipal da mais ampla divulgação da programação de cinema (e outras) na cidade (correntemente em eclipse militante).
- Levar a perceber que um filme é (ou num filme há) uma sensação informulada que domina tudo o resto e, então, adoecer de cinema *.
* A expressão é de Enrique Vila-Matas: ‘adoecer de literatura’. Também.
Luís Ferro (Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora).
José Manuel Martins (Departamento de Filosofia da Universidade de Évora).
Jorge Branquinho (Ministério da Saúde).
Rui Salvador (Universidade de Évora).
Sessões às 21h30
AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora
Rua Diogo Cão, 8 | 7000-872 Évora | Portugal
cineclube@uevora.pt | auditorio.sorormariana@gmail. com
AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora
Rua Diogo Cão, 8 | 7000-872 Évora | Portugal
cineclube@uevora.pt | auditorio.sorormariana@gmail.
Apoios: Cineclube da Universidade de Évora | Pátio do Cinema – Núcleo de Cinema da SOIR | Departamento de Filosofia da Universidade de Évora | Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora (CHAIA/UÉ).


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