As correspondências extravasam as assinaladas, mas chega lembrar além delas que, contando uma sobejamente mais extensa filmografia de actriz – uns 250 títulos iniciados ainda nos anos 20/XX, Kinuyo Tanaka trabalhou com Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, Yasujiro Shimizu, Mikio Naruse... como Ida Lupino com William Wellman e Raoul Walsh, Nicholas Ray, Fritz Lang... para citar, vezes dois, quatro decisivos exemplos que em cada caso contemplam duetos especiais, especialmente cinematográficos e especialmente populares – Lupino e Walsh, Tanaka e Mizoguchi. Na mais de uma dúzia de filmes da colaboração de Mizoguchi e Kinuyo Tanaka entre 1940 e 1954 contam-se os da enfeitiçante Senhora Oyu (
Oyu Sama, 1951) e da estarrecedora Senhora O’Haru (
Saikaku Ichidai Onna / “
A Vida de O’Haru”, 1952). A Oyu do plano de Tanaka envolta no quimono branco como aparição enquadrada entre a copa raiada de sol de uma árvore para lá do ramo que atravessa a imagem desenhando uma linha horizontal na verticalidade que emana da figura dela. A O’Haru dilacerada que quebra e não quebra a cada golpe na impossibilidade de viver a sua vida senão a quebrar e a não quebrar.
A par de
Ugetsu Monogatari /
Contos da Lua Vaga (1953) e
Sansho Dayu / “
O Intendente Sansho” (1954), os Mizoguchi seguintes, o filme de O’Haru entranhou a Ocidente a imagem de Kinuyo Tanaka, que não só já tinha o lastro da “mais reconhecida actriz japonesa”, com importantes encontros também com Heinosuke Gosho ou Keisuke Kinoshita, como já oscilara ela própria entre esse papel e o de realizadora. A segunda na História do cinema japonês, aberta nesse capítulo em meados dos anos 1930 por Tasuko Sakane (1904-1975). Em sensivelmente uma década realizou seis filmes, pelos quais teve de lutar enfrentando a política dos estúdios, atalhando a ira com que consta ter sido recebida no Japão depois de uma viagem à América em 1949, e de ter escolhido a independência da Shochiku a que estava ligada desde os 14 anos. E se encontrou resistência em Mizoguchi, teve aliados em Kinoshita e Ozu.
Kinoshita escreveu, com Fumio Niwa, o argumento de
Koibumi / “
Cartas de Amor” (1953), o primeiro filme de Tanaka, em que se reflectem as feridas do pós-guerra numa sociedade que prosseguia brutal no olhar que lançava às mulheres. A essa brutalidade responde um grande plano da personagem interpretada por Yoshiko Kuga, já perto do fim, que tem de ser
visto para que se sinta o acossamento, a dor, a incredulidade, a recusa de mais palavras, a convulsão e a contenção. Está tudo na expressão dela encostada a uma rede gradeada com os chapões da luz intermitente de faróis em trânsito a abalarem a imagem do rosto todo em estremecimento. Não sei se há plano aproximável em
Tsuki wa noborinu: o segundo filme de Tanaka parte de um argumento de Ozu e Ryosuke Saito, conta com a presença de Chishu Ryu numa história de pai e filhas, mas mesmo se assim descrito lembra Ozu não há-de ser menos dela que o primeiro ou os seguintes.
A imagem do portão fechado de
Tsuki wa noborinu é de um fulgor discreto. Faz raccord com o interior de uma casa em que tudo parece tranquilo, filtrado por cortinas leves, uma janela-biombo que alguém faz deslizar revelando outro espaço doméstico, uma outra mais larga que nova personagem abre para uma paisagem campestre, ligando a cena ao exterior. Não conheço mais. É o suficiente para sentir a disposição para a imersão.
Há muito a escavar. Entretanto, a Lua alta brilha.
Maria João Madeira

Manel atravessa Lisboa com um colchão às costas e decide fazer uma pausa.
Nem de propósito entra na rodagem de um filme onde conhece Rita e tudo volta a fazer sentido.