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quarta-feira, 27 de abril de 2016

cinema - fora - dos Leões


Sexta,   29/4







O CINEMA-FORA-DOS LEÕES apresenta

Sexta-feira, 22 de Abril, 21h30
AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora


MOOLAADÉ / 2004, Ousmane Sembene, legendado em inglês.*


Programação de Abril e Maio de 2016:
29 de Abril - Filme Surpresa.*
6 de Maio - A Vida Invisível (2013), Vítor Gonçalves, com a presença e apresentação do realizador Vítor Gonçalves.
13 de Maio - O Novo Mundo (2005), Terrence Malick.* Sessão apresentada por José Manuel Martins, como extensão da Conferência «Do Homem como Microcosmos ao 'Tempo da Imagem do Mundo'», no âmbito do ProjectoDiálogos, da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com a Escola de Ciências Sociais da UÉ e com a CMÉ.
20 de Maio - Flor Azul (2014), Raul Domingues e Da meia-noite p'ro dia (2014), Vanessa Duarte, com a presença e apresentação do realizador Raul Domingues. Sessão de apresentação do Festival DocLisboa 2016 – Secção 'Verdes Anos'.
27 de Maio - The Shinning (1980), Stanley Kubrick.*
Ciclo Um Olhar a oriente / A oriente do olhar

O filme:
Sembene veio ao continente a norte aprender o ofício (de realizador), e voltou ao sul para inventar o cinema nascido de África e da terra. Pois que é dela a força destas cores, elevadas pelo milagre da película imaterial à cintilação de ideias platónicas visíveis: os rubros, ocres e esmeraldas dos vestuários, das construções, dos utensílios e da vida, ostentam 'o vermelho em si', 'o amarelo em si'. A língua falada - sonora e cantante - expressa directamente a força de presença de cada qual; e toda essa profusa orquestração em arco-íris daquela região de paraíso se manifesta como a incandescência sensível da imensa intensidade interior da figura humana em acto de existência. Gestos, olhar, postura, acções, exacções, são inteiramente anímicos e inteiramente corpóreos, e concorrem para um cinema de intensidades que é ao mesmo tempo um singular estudo de micropolítica - aquela onde vem a emergir essa singular força de ser que se chama liberdade.
Tal é, para Sembene, o tema nuclear do filme, que o seu tema motor - a excisão feminina - desencadeia. Torna-se vertiginoso percorrer e desenhar o subtil diagrama do jogo de poderes que estrutura o acontecimento dramático-narrativo: pois que todos estes seguintes eixos simples se cruzam e recruzam uns com os outros, recompondo de formas crescentemente complexas uma ponderação multifactorial capaz de derrotar o melhor campeão de xadrez: feitiço e contra-feitiço; comunidade feminina livre e assembleia patriarcal; ascendente hierárquico do irmão mais velho sobre o mais novo e a cunhada; costumes tradicionais e vontade individual; arcaicas sororidades rituais e influência emancipadora da telefonia; bastão xamânico e salto tecnológico, rosto de ironia e rosto de hieratismo; fora e dentro do moolaadé; contexto autóctone fechado e referenciais cosmopolitas de emigrados; poder económico e poder simbólico, vontade paterna e expressão filial; primeira e segunda mulher, mães e filhas, crianças e adultos; contrato matrimonial e pulsão amorosa; excisão do clítoris e recusa; consciência e colectivo; sagrado e profano; história e geografia; obediência e revolta; ser e liberdade; protecção e rapto, vida e morte. Antes e depois.
Produto de uma cooperação internacional mobilizando meia África entre Marrocos, Senegal, Burkina Faso, Tunísia, Camarões, o filme de Ousmane Sembene constitui uma magistral obra-prima e um tratado do mais perfeito equilíbrio e coesão entre argumento, cenário, desempenho dramático, ritmo - e fascinação.
Mas é mais do que isso: este é um cinema que quer sair do ecrã e fazer chegar a imagem ao lugar donde ela partiu, o mundo africano, num programa itinerante do filme como imagem em hipermovimento: da imagem que devolve o olhar e olha aqueles que a miram, percorrendo e atingindo África como uma magia mais forte.

O ciclo Um Olhar a Oriente / A Oriente do Olhar:
Já designado 'Um olhar a Oriente', está longe de querer, ou poder, ser intuito deste ciclo usar a lente do cinema como telescópio do lugar remoto ou como endoscópio do 'Outro', seja, o olho que olha, o nosso ou o do próprio. O mais que poderemos fazer é recordar aspectos 'a oriente' - mas também a sul, e também a ocidente, é aliás por aí exactamente que começamos, por Paris demasiado a ocidente dos seus 'orientais' subúrbios -, num tempo de todos que é menos de rosa-dos-ventos do que de desnorte e de desorientação (ainda um dia me hão-de explicar a diferença...).
Tomaremos privilegiadamente como objectos de consideração aqueles que se situam 'como a mulher indiana': filmes na periferia da periferia - por exemplo, recuando às raízes da actualidade num filme como o 'Gare Central' (do Cairo), de Youssef Chahine (mais um Nouvelle Vague fundador...), onde o trânsito do tempo nesse país da 'Primavera Árabe', de 1958 à actualidade, é oblíquo e só indirectamente nos permite obter um vislumbre sobre o Egipto que seja, precisamente agora, pertinente.
Mas também remeteremos para 'o oriente que sonha', p. ex. os grandes épicos magistrais do Kung Fu dos anos 70 - ocasião para puxarmos da artilharia pesada da linha Edward Saïd acerca dos estereótipos ideológicos do 'orientalismo'...
Peça central que quereremos chamar à discussão, quer nos seja possível projectá-lo, quer não  - e que só em concomitância com muitas outras de diferentes quadrantes e enfoques pode chegar a esboçar uma constelação mínima de questões em torno do vasto acontecimento intercultural que, na era pós-colonial, reverte a sua direcção - será o filme de Abderrahmane Sissako Tymbuktu, que vem desde esse continente silenciado (ainda recentemente na febre epidémica do 'Je suis Charlie' enquanto massacres de milhares decorrem na Nigéria e massacres de milhões acabaram de decorrer nas 'Primeira e Segunda Guerras do Congo', sem uma palavra 'branca') altera radicalmente as coordenadas quase obscenamente eurocêntricas segundo as quais nos reportamos 'ao oriente' - agora, a sul - e aos 'outros' - que, agora, são também os outros dos outros e, na verdade, também nós mesmos.
Valia a pena projectar, em sessão tripla, o referido Timbuktu, o paródico Little Big Man (Arthur Penn, 1970) e um de entre muitos exemplos de títulos que fazem da representação dos índios, na ideologia do Western dos anos 40-50, o perfeito equivalente dos assassinos que reencenam, décadas mais tarde, com deleite narcísico, the(ir) act of killing. Porque, quando se obtém, não apenas uma perspectiva sobre as coisas, mas sucessivas perspectivas sobre as perspectivas, é quando o raios da agulha da bússola começa talvez a querer acertar com a maldita geografia de que se andava à procura.
Porque, de facto, a terra não é plana, mas redonda, e, por isso, "West is West and East is East" e não podem senão encontrar-se. 
Oh, they did meet, they did meet  - nas grandes pradarias centrais de Touro Sentado, mesmo ali ao lado do Nascimento de uma Nação (...) que trocava um genocídio por um apartheid; retomando-se nos Westerns infames dos 40's e dos 50's, e ainda hoje, no folclore rememorativamente obnubilante das 'reservas nativas'. (Para não se pensar que 'os americanos' têm o exclusivo da chacina integral, cf o recente O botão de Nácar, de Patrício Guzmán. Mas não é preciso ver cinema, basta ver o mapa do continente: encontra-se totalmente ocupado por países  - para lá levados pelos europeus -,  pois pelo que é que haviam de o estar?...., é a coisa mais natural do mundo, basta olhar para este).
Colombo tinha razão, e encontrou literalmente os Índios, esses extremo-orientais imigrados milénios antes, pelos estreitos setentrionais, da Ásia para o continente interposto. Na Terra de Magalhães, preço a pagar pela de Copérnico, o problema do orientalismo é biface, e indissociável da conquista do Espaço, iniciada simultaneamente pela pintura do Quattrocento, que racionaliza mediante a perspectiva o domínio da natureza (recentemente conquistada a Deus e à Idade Média) pelo Sujeito; e pela expansão marítima europeia, que irracionaliza o domínio dos outros sujeitos por aquela mesma perspectiva ocidental.

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