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quarta-feira, 16 de março de 2016

cinema fora dos leoes


CfL apresenta o

ciclo "um olhar a oriente"


sexta,  18/3, 21h30

auditorio soror mariana (Évora)








O CINEMA-FORA-DOS LEÕES apresenta

Sexta-feira, 18 de Março, 21h30
AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora


MIDNIGHT EXPRESS / 1978, Alan Parker (121 min.)


Programação de Março e Abril de 2016:
25 de Março - Rules of Engagement (2000), William Friedkin*
1 de Abril - O Gotejar da Luz (2002), Fernando Vendrell – apresentação do realizador Fernando Vendrell
8 de Abril - Rachida (2002), Yamina Bachir*
15 de Abril - Uma Pedra no Bolso (1988), Joaquim Pinto – sessão integrada no projecto O Primeiro Olhar, da associação Filhos de Lumière
22 de Abril - Timbuktu (2014), Abderrahmane Sissako (a confirmar)*
Ciclo Um Olhar a oriente / A oriente do olhar

O filme:
Uma é a história que o filme conta: o americano incauto a quem, carregado de haxixe à saída da Turquia, é oferecida  - por obséquio do seu sistema penal e por um azar da Realpolitik internacional -  uma estadia vitalícia em prisão perpétua  (isso mesmo!). Tomará, por fim, esse comboio-fantasma da evasão à meia-noite, como triunfo do indivíduo livre e do amor da namorada.

Esta história é real, foi contada por Billy Hayes e tornada um pouco menos real: tornou-se um livro.

Outra (e não será a mesma outra vez?...) é a história do próprio filme: 3 Óscares em 7 nomeações, é entretanto crucificado politicamente pela crítica americana, designado pela consciência moral de Cannes um empreendimento fascista a soldo da CIA, e intimado por todos a pedir desculpa de joelhos - a Cannes, à América esclarecida e, sobretudo, ao povo turco, à cultura turca, à religião turca, à polícia turca, ao estado turco - a quem o personagem, no filme, chama, para tudo resumir, um país e uma religião de porcos. (E lá vêm outra vez os Pigs da semana passada para mais uma batalha naval...).

E é aqui que a porca torce o rabo: Oliver Stone (o argumentista oscarizado no seu début cinematográfico absoluto, e personagem com uma das folhas políticas mais insuspeitas do continente a seguir a Noam Chomsky e a Che Guevara), e Alan Parker, o realizador, recusam-se a pedir desculpas porque se recusam a aceitar a concepção de cinema que subjaz ao processo acusatório. O mal-entendido seria cinematográfico antes de ser cultural, ideológica ou política.

Tocam-se aqui muito cruamente duas aporias: uma essência do cinema que parece subdividir-se em duas  - e o paradoxo de, dos dois lados de duas concepções de fundo insanavelmente opostas do que é o cinema, se encontrarem obviamente as (duas metades insanavelmente opostas das) elites esclarecidas do mundo cinematográfico internacional.

Há uma resposta e uma só resposta. E essa resposta está no filme. Não é  - nada receiem - uma resposta 'puramente cinematográfica': é por ser exactamente uma resposta puramente cinematográfica que ela é a mais política de todas as respostas.


O ciclo:
Já designado 'Um olhar a Oriente', está longe de querer, ou poder, ser intuito deste ciclo usar a lente do cinema como telescópio do lugar remoto ou como endoscópio do 'Outro', seja, o olho que olha, o nosso ou o do próprio. O mais que poderemos fazer é recordar aspectos 'a oriente' - mas também a sul, e também a ocidente, é aliás por aí exactamente que começamos, por Paris demasiado a ocidente dos seus 'orientais' subúrbios -, num tempo de todos que é menos de rosa-dos-ventos do que de desnorte e de desorientação (ainda um dia me hão-de explicar a diferença...).

Tomaremos privilegiadamente como objectos de consideração aqueles que se situam 'como a mulher indiana': filmes na periferia da periferia - por exemplo, recuando às raízes da actualidade num filme como o 'Gare Central' (do Cairo), de Youssef Chahine (mais um Nouvelle Vague fundador...), onde o trânsito do tempo nesse país da 'Primavera Árabe', de 1958 à actualidade, é oblíquo e só indirectamente nos permite obter um vislumbre sobre o Egipto que seja, precisamente agora, pertinente.

Mas também remeteremos para 'o oriente que sonha', p. ex. os grandes épicos magistrais do Kung Fu dos anos 70 - ocasião para puxarmos da artilharia pesada da linha Edward Saïd acerca dos estereótipos ideológicos do 'orientalismo'...

Peça central que quereremos chamar à discussão, quer nos seja possível projectá-lo, quer não  - e que só em concomitância com muitas outras de diferentes quadrantes e enfoques pode chegar a esboçar uma constelação mínima de questões em torno do vasto acontecimento intercultural que, na era pós-colonial, reverte a sua direcção - será o filme de Abderrahmane Sissako Tymbuktu, que vem desde esse continente silenciado (ainda recentemente na febre epidémica do 'Je suis Charlie' enquanto massacres de milhares decorrem na Nigéria e massacres de milhões acabaram de decorrer nas 'Primeira e Segunda Guerras do Congo', sem uma palavra 'branca') altera radicalmente as coordenadas quase obscenamente eurocêntricas segundo as quais nos reportamos 'ao oriente' - agora, a sul - e aos 'outros' - que, agora, são também os outros dos outros e, na verdade, também nós mesmos.

Valia a pena projectar, em sessão tripla, o referido Timbuktu, o paródico Little Big Man (Arthur Penn, 1970) e um de entre muitos exemplos de títulos que fazem da representação dos índios, na ideologia do Western dos anos 40-50, o perfeito equivalente dos assassinos que reencenam, décadas mais tarde, com deleite narcísico, the(ir) act of killing. Porque, quando se obtém, não apenas uma perspectiva sobre as coisas, mas sucessivas perspectivas sobre as perspectivas, é quando o raios da agulha da bússola começa talvez a querer acertar com a maldita geografia de que se andava à procura.
Porque, de facto, a terra não é plana, mas redonda, e, por isso, "West is West and East is East" e não podem senão encontrar-se. 
Oh, they did meet, they did meet  - nas grandes pradarias centrais de Touro Sentado, mesmo ali ao lado do Nascimento de uma Nação (...) que trocava um genocídio por um apartheid; retomando-se nos Westerns infames dos 40's e dos 50's, e ainda hoje, no folclore rememorativamente obnubilante das 'reservas nativas'. (Para não se pensar que 'os americanos' têm o exclusivo da chacina integral, cf o recente O botão de Nácar, de Patrício Guzmán. Mas não é preciso ver cinema, basta ver o mapa do continente: encontra-se totalmente ocupado por países  - para lá levados pelos europeus -,  pois pelo que é que haviam de o estar?...., é a coisa mais natural do mundo, basta olhar para este).
Colombo tinha razão, e encontrou literalmente os Índios, esses extremo-orientais imigrados milénios antes, pelos estreitos setentrionais, da Ásia para o continente interposto. Na Terra de Magalhães, preço a pagar pela de Copérnico, o problema do orientalismo é biface, e indissociável da conquista do Espaço, iniciada simultaneamente pela pintura do Quattrocento, que racionaliza mediante a perspectiva o domínio da natureza (recentemente conquistada a Deus e à Idade Média) pelo Sujeito; e pela expansão marítima europeia, que irracionaliza o domínio dos outros sujeitos por aquela mesma perspectiva ocidental.

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