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quinta-feira, 3 de março de 2016

cinema de sexta

CfL

4/3, 21h30









O CINEMA-FORA-DOS LEÕES apresenta

Sexta-feira, 4 de Março, 21h30
AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora


IN COMPARISON / 2009, Harun Farocki (61 min.)


O filme:
Harun Farocki (1944-2014) compara o fabrico de tijolos praticado em Burkina Faso, Índia e no triângulo Alemanha-Suiça-Áustria para analisar, discutir e evidenciar os diferentes sistemas laborais e socioeconómicos do mundo. Actualmente, o tijolo continua a ser produzido ora segundo lógicas construtivas ancestrais (amassar, enformar e cozer a terra), ora por um aparatoso manancial de máquinas. Se de um lado do mundo a construção é uma acção colectiva de grande significado social, noutro o trabalho humano é reduzido à monitorização de máquinas. Este filme explora a desvalorização do trabalho humano pelo sistema capitalista, mas procura mais do que demonstrar a oposição sociedade-pobreza-apocalipse/isolamento-eficiência-progresso. Parece sugerir a formulação de uma hipótese de diálogo que equilibre/ajuste as duas realidades contrastantes.
A total ausência de diálogos ou narrativa força o espectador a interpretar as imagens apresentadas. Cada imagem é questionada e interpretada pela seguinte, o que conduz a uma estrutura cinematográfica que não dá espaço à nostalgia nem ao entusiasmo pela eficiência tecnológica. Este filme mostra-nos como os dois opostos se olham, interrogam e criticam um ao outro com a inteligência de colocar/confrontar os problemas contemporâneos onde eles existem.

O ciclo:
já designado 'Um olhar a Oriente', está longe de querer, ou poder, ser intuito deste ciclo usar a lente do cinema como telescópio do lugar remoto ou como endoscópio do 'Outro', seja, o olho que olha, o nosso ou o do próprio. O mais que poderemos fazer é recordar aspectos 'a oriente' - mas também a sul, e também a ocidente, é aliás por aí exactamente que começamos, por Paris demasiado a ocidente dos seus 'orientais' subúrbios -, num tempo de todos que é menos de rosa-dos-ventos do que de desnorte e de desorientação (ainda um dia me hão-de explicar a diferença...).
Tomaremos privilegiadamente como objectos de consideração aqueles que se situam 'como a mulher indiana': filmes na periferia da periferia - por exemplo, recuando às raízes da actualidade num filme como o 'Gare Central' (do Cairo), de Youssef Chahine (mais um Nouvelle Vague fundador...), onde o trânsito do tempo nesse país da 'Primavera Árabe', de 1958 à actualidade, é oblíquo e só indirectamente nos permite obter um vislumbre sobre o Egipto que seja, precisamente agora, pertinente.
Mas também remeteremos para 'o oriente que sonha', p. ex. os grandes épicos magistrais do Kung Fu dos anos 70 - ocasião para puxarmos da artilharia pesada da linha Edward Saïd acerca dos estereótipos ideológicos do 'orientalismo'...
Peça central que quereremos chamar à discussão, quer nos seja possível projectá-lo, quer não  - e que só em concomitância com muitas outras de diferentes quadrantes e enfoques pode chegar a esboçar uma constelação mínima de questões em torno do vasto acontecimento intercultural que, na era pós-colonial, reverte a sua direcção - será o filme de Abderrahmane Sissako Tymbuktu, que vem desde esse continente silenciado (ainda recentemente na febre epidémica do 'Je suis Charlie' enquanto massacres de milhares decorrem na Nigéria e massacres de milhões acabaram de decorrer nas 'Primeira e Segunda Guerras do Congo', sem uma palavra 'branca') altera radicalmente as coordenadas quase obscenamente eurocêntricas segundo as quais nos reportamos 'ao oriente' - agora, a sul - e aos 'outros' - que, agora, são também os outros dos outros e, na verdade, também nós mesmos.
Valia a pena projectar, em sessão tripla, o referido Timbuktu, o paródico Little Big Man (Arthur Penn, 1970) e um de entre muitos exemplos de títulos que fazem da representação dos índios, na ideologia do Western dos anos 40-50, o perfeito equivalente dos assassinos que reencenam, décadas mais tarde, com deleite narcísico, the(ir) act of killing. Porque, quando se obtém, não apenas uma perspectiva sobre as coisas, mas sucessivas perspectivas sobre as perspectivas, é quando o raios da agulha da bússola começa talvez a querer acertar com a maldita geografia de que se andava à procura.


O CINEMA -FORA- DOS LEÕES: Perfil da nossa programação

Ela organiza-se em torno de quatro eixos:
(I) O cinema português em primeira pessoa - apresentado pelos próprios realizadores e realizadoras (sessão mensal)
(II) Exploração sistemática da multidimensionalidade técnica do cinema como medium dos seus conteúdos (rubrica permanente);
(III) Carta branca às escolhas dos convidados: críticos, cineclubistas, académicos… (sessão bimestral);
(IV) Ciclos temáticos pontuais - e de ponta (rubrica semestral).

Características:
- Apresentação, comentário e debate alargado de todos os filmes.
- Folha de Sala em todas as sessões (ficha técnica e caderno de ensaios interpretativos).
- Leitura e conceptualização do cinema na rememoração da sua história integral (e das suas geografias) e no horizonte da crítica cinematográfica, dos Film Studies, da Filosofia do Cinema e… da pura cinefilia (a louca da casa).
- Site (‘en construcción’).
- Carta branca ao espectador: entrada livre, contribuição graciosa à saída para o nosso projeccionista, o Sr. António.

Finalidades:
- Integrar-se na actividade cinéfila de grande qualidade e variadas orientações da cidade de Évora (‘os cinco santuários’).
- Projectar a compreensão do cinema para além do cinema  - como forma e caminho de um pensamento de tudo.
- Contribuir para a constituição de uma comunidade consistente de espectadores que vejam, pensem e digam cinema (isto é, o mundo).
- Encontrar o coração de cada filme (por onde ele nos atinge desde dentro), que é também o nosso.
- Animar e mobilizar o marasmo estrutural de um público-alvo em fase aguda da sua inexistência, e exortar as duas comunidades universitárias (a docente e a discente), bem como a bacia cultural eborense lato sensu, a não temerem a magnitude do ecrã na noite escura. Não é um espelho. Nem a ‘utilidade social’ da ‘articulação da Universidade com a dinâmica cultural’, permitindo assim passar-se a observar (in vivo, ou sob a forma de hino) a plasticidade dos saberes.
- Aspirar à caridade municipal da mais ampla divulgação da programação de cinema (e outras) na cidade (correntemente em eclipse militante).
- Levar a perceber que um filme é (ou num filme há) uma sensação informulada que domina tudo o resto e, então, adoecer de cinema *.

* A expressão é de Enrique Vila-Matas: ‘adoecer de literatura’. Também.

Luís Ferro (Centro de História da Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora).
José Manuel Martins (Departamento de Filosofia da Universidade de Évora).
Jorge Branquinho (Ministério da Saúde).
Rui Salvador (estudante de Engenharia Mecatrónica)

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