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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

cFL









O CINEMA-FORA-DOS LEÕES apresenta

Sexta-feira, 19 de Fevereiro, 21h30

AUDITÓRIO SOROR MARIANA
Cineclube da Universidade de Évora


MEETINGS WITH REMARKABLE MEN / 1979, Peter Brook (108 min.) - apresentação de José Carlos Tiago de Oliveira.

Programação de Fevereiro de 2016:
26 de Fevereiro - O Sangue (1989), Pedro Costa - sessão integrada nos programas O Primeiro Olhar e Moving Cinema, com organização da associação Os Filhos de Lumière, Direcção Regional de Cultura do Alentejo e Cinema-fora-dos Leões.
29 de Fevereiro - Manhã Submersa (1980), Lauro António - apresentação de António Cândido Franco e José Manuel Martins. Sessão no âmbito do Congresso Internacional comemorativo do Centenário do nascimento de Vergílio Ferreira 'Vergílio Ferreira: entre o silêncio e a palavra total', Universidade de Évora.


O filme:
Devotada homenagem de Peter Brook à figura de Gurdjieff enquanto mestre elusivo de uma ‘verdade’ que precisa da Ásia toda – com seus intermináveis himalaias, góbis, estepes e antiquíssimo maravilhoso fantasista ou secretas tradições iluminativas – para se adiar sem fim sempre para o lado de lá do horizonte.
E é um horizonte de viajantes-buscadores e seus notáveis encontros com notáveis homens de sabedoria, descrito no livro autobiográfico da juvenília desse guru desconhecido “que nos anos 20 apareceu na Europa”, que um conjunto dos seus discípulos mais ou menos próximos revisita, em 78, neste filme. A começar por Peter Brook, o realizador que filma os deuses e os homens, os actos e as intuições de Mahabharata (em 1989); continuando com Stamp, que, depois de visitar e devastar como um deus (do amor) a burguesia industrial italiana no Teorema de Pasolini (1968) antes de ser por sua vez devastado pela deusa (do amor) J.S., que ‘na vida real’ por essa altura o abandonava, se retirava para o ashram indiano de Baghwan Rajneesh; e incorporando como guionista a gurdjieffiana Jeanne de Salzmann, bem como a música do gurdjieffiano Thomas de Hartmann, assim como igualmente...
Assim, depois de Gurdjieff trazer para a Europa a memória dos seus encontros asiáticos com homens notáveis, os homens notáveis europeus viajam pelo cinema em sentido inverso e entregam um filme de discípulos à memória do mestre. O orientalismo de Meetings, o filme, feito por europeus a representar o oriente (e a filmá-lo com fidelidade on location no Afeganistão), é por sua vez herdado do orientalismo do próprio livro, que cultiva, entre o símbolo e o clichê, uma imagem hiperbolicamente rebuscada da orientalidade do oriente, livro escrito em russo pelo poliglota Gurdjieff já a partir da sua estância e residência a ocidente. Gurdjieff que é, ele próprio, ao mesmo tempo um russo do seu oriente a sul – a Arménia – e, por genealogia, um ocidental do país europeu ao mesmo tempo o mais oriental, geograficamente, e o mais ocidentalizante, historicamente: a Grécia. Um místico, professor, guru, compositor, escritor, pois, oriundo ele próprio da região de encruzilhadas entre ‘East and West, West and East’.
Sem nos enganarmos sobre quantos lestes há a oriente nem sobre quantos ocidentes vai havendo de permeio, a apresentação da sessão desta semana não poderia estar mais bem entregue – a um viajante de todas as Ásias, Europas e Áfricas que reproduz ele próprio no mapa vivo da sua própria itinerância a rítmica do ‘The Work’ e a narratividade dos encontros de serendip, e muitas vezes a oriente do oriente.

O apresentador:
José Carlos Tiago de Oliveira é Professor do Departamento de Matemática da Universidade de Évora e Coordenador do projecto Erasmus Mundus EMMA WEST 2013.

O ciclo:
já designado 'Um olhar a Oriente', está longe de querer, ou poder, ser intuito deste ciclo usar a lente do cinema como telescópio do lugar remoto ou como endoscópio do 'Outro', seja, o olho que olha, o nosso ou o do próprio. O mais que poderemos fazer é recordar aspectos 'a oriente' - mas também a sul, e também a ocidente, é aliás por aí exactamente que começamos, por Paris demasiado a ocidente dos seus 'orientais' subúrbios -, num tempo de todos que é menos de rosa-dos-ventos do que de desnorte e de desorientação (ainda um dia me hão-de explicar a diferença...).
Tomaremos privilegiadamente como objectos de consideração aqueles que se situam 'como a mulher indiana': filmes na periferia da periferia - por exemplo, recuando às raízes da actualidade num filme como o 'Gare Central' (do Cairo), de Youssef Chahine (mais um Nouvelle Vague fundador...), onde o trânsito do tempo nesse país da 'Primavera Árabe', de 1958 à actualidade, é oblíquo e só indirectamente nos permite obter um vislumbre sobre o Egipto que seja, precisamente agora, pertinente.
Mas também remeteremos para 'o oriente que sonha', p. ex. os grandes épicos magistrais do Kung Fu dos anos 70 - ocasião para puxarmos da artilharia pesada da linha Edward Saïd acerca dos estereótipos ideológicos do 'orientalismo'...
Peça central que quereremos chamar à discussão, quer nos seja possível projectá-lo, quer não  - e que só em concomitância com muitas outras de diferentes quadrantes e enfoques pode chegar a esboçar uma constelação mínima de questões em torno do vasto acontecimento intercultural que, na era pós-colonial, reverte a sua direcção - será o filme de Abderrahmane Sissako Tymbuktu, que vem desde esse continente silenciado (ainda recentemente na febre epidémica do 'Je suis Charlie' enquanto massacres de milhares decorrem na Nigéria e massacres de milhões acabaram de decorrer nas 'Primeira e Segunda Guerras do Congo', sem uma palavra 'branca') altera radicalmente as coordenadas quase obscenamente eurocêntricas segundo as quais nos reportamos 'ao oriente' - agora, a sul - e aos 'outros' - que, agora, são também os outros dos outros e, na verdade, também nós mesmos.
Valia a pena projectar, em sessão tripla, o referido Timbuktu, o paródico Little Big Man (Arthur Penn, 1970) e um de entre muitos exemplos de títulos que fazem da representação dos índios, na ideologia do Western dos anos 40-50, o perfeito equivalente dos assassinos que reencenam, décadas mais tarde, com deleite narcísico, the(ir) act of killing. Porque, quando se obtém, não apenas uma perspectiva sobre as coisas, mas sucessivas perspectivas sobre as perspectivas, é quando o raios da agulha da bússola começa talvez a querer acertar com a maldita geografia de que se andava à procura.

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