Fevereiro é mês de carnaval. E é também mês para o ensaio de uma abordagem dos humores europeus. Abre com Feios, porcos e maus, de Ettore Scola. O filme apresenta-nos, em tons conjugados de hilariante burlesco e mordacidade satírica, a história de uma família miserável atravessada pela corrosão dos costumes e pelo mais desbragado quotidiano. A acção situa estas caricaturas, esboçadas a traço grosso, num bairro de lata em Roma, uma das seis capitais fundadoras da União Europeia, em 1952. Eis um pano de fundo que não pode deixar de se pensar, hoje como então, perturbador, dando ao riso um tom especialmente amargo.
Com Orfeu negro, o filme premiado que Marcel Camus dedicou ao carnaval brasileiro visto por Vinicius a partir do mito grego, num jogo de encaixes que ora se oculta ora se desvela no filme. Orfeu e Eurídice situam na favela o mito, e o Carnaval, se lhes garante um tempo de todos os possíveis, também os condena a perder-se sem remédio ao ritmo lamentoso do refrão de Jobim: «tristeza não tem fim…».
O mês termina com Os Canibais, o filme-ópera de Manoel de Oliveira onde os amores (e humores) frustrados que o cineasta já tinha tematizado noutros filmes regressam, aqui inspirados numa frenética narrativa de horror que Álvaro do Carvalhal escreveu no século XIX. É pela via do macabro (um nosso 'pequeno macabro') que ali se exibem os humores e a ironia toma conta do desfecho.
Terça, 3 Fevereiro, 21h30
Lg de S. Vicente (Évora)
Feios, Porcos e Maus de Ettore Scola
Próximas sessões
10 Fevereiro
Orfeu Negro (1959), Marcel Camus
24 Fevereiro
Os Canibais (1988), Manoel de Oliveira


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