Ciclo “Habitats e desterritorialização…”
Duel de Steven Spielberg + Passando à de Zé Marôvas de Aurora Ribeiro
Segunda, 3/6, 22h00
Sala da Harmonia
Associação Cultural Sem Fins Lucrativos, fundada em 1849
SHE | Praça do Giraldo, 72, Évora
she.lab.evora@gmail.com| "..................http://www.youtube.com/watch?v=MujO-44fZyI | Em duelo com Duelo, apresentamos o documentário premiado no DocLisboa 2009, de Aurora Ribeiro. Se o habitat do road movie é a estrada remota, a memória cinéfila do western, o thriller hitchcockiano (“por que atacam os pássaros?!” ou os ‘camiões’, e antes disso, “o que são os «pássaros»?” ou os ‘camiões’), se, nele, o desterritorializante puro (o ‘un-heimlich’: o mais familiar de tudo que porém assombra a casa até à sua completa trans-figuração: o mesmo é dizer, até receber o Grand Prix do Festival do Cinema Fantástico de Avoriaz) é o mais emblemático dos nativos da estrada, o pesado e versátil camião-cisterna Peterbilt 281 com focinho de predador tecnológico - em Passando à de Zé Marôvas, o habitat é o Alentejo espesso do Redondo, a loja mais velha que ela própria, e a velhice, própria e partilhada (no café dos jogos da malha ou do pião).
Também nas respectivas dinâmicas as duas películas se complementam: o trajecto de David Mann atravessa uma estrada sem fim (na verdade, um circuito recursivo de pesadelo), o sr. Marôvas não se desloca, recebe as repetidas visitas dos que o circundam - na verdade, invertendo o périplo da Odisseia num microcosmos de um Ulysses de vila pós-homérico, pós-joyceano e pós-copernicano que já não viaja em redor de ilha em ilha, ‘regulando-se pelo objecto’, diz Kant, mas aguarda que as ‘ilhas’ e cada um dos seus episódios reveladores orbitem em torno do seu balcão de loja e de poesia, ‘regulando-se pelo sujeito’ (centrando-se pelo acto de perspectivação executado pela aparente mobilidade deste) e deixando assim aparecer transcendentalmente o inteiro mundo da nossa realidade fenoménica. (O estranho paralelo, que parece a contra-senso, estabelecido por Kant com o heliocentrismo de Copérnico, reduz-se a registar que é o sujeito que se move a conhecer, e não os objectos que se movem a serem conhecidos: quer dizer, o acto de presença e de apresentação cabe ao sujeito, e é idealista, e não ao objecto realista, e é paradoxalmente ao perder o seu geocentrismo tradicional que o sujeito se torna o senhor do universo: não já o nostos de Ulisses, mas a ‘odisseia no espaço’, libertada da gravitação natal que, viu bem o Vaticano de Galileu e o teatro de Brecht, co-significa submissão teológica ao lugar criatural adscrito).
Cada ilha (humana), seu sabor (de vida): a chilreante dama das aves canoras na gaiola, a conversação metafísica sobre a origem e o destino, entre os dois velhos que, perguntando-se sobre a galinha e o ovo - que força é que se precedam entre si eternamente -, suspiram a iludir sem fim o momento da morte num igual ‘nada sabemos do grande mistério’, cada capítulo joyceano desta odisseia redonda é tratado (incônscio de tudo isto) como uma esfera literária, uma ilha separada, uma viagem que atravessa o viajante à son insu, sem no entanto chegar, nem a poder desterritorializá-lo, nem a regressar a casa, onde já mora desde sempre.
Colado ao seu ‘circum-mundo’ (Umwelt), sem recuar distância de com ele, o animal é um continuum com o seu meio: é sem-mundo (weltlos). Dizemo-lo territorial - por demarcação e apropriação -, mas o bicho vive cosido às coisas como um anel de Möbius, num circuito paradrômico. O encanto deste mundo redondense sem idade do sr. Marôvas e da sua dormência de penumbra nos dias repetidos, está em não sabermos inteiramente classificá-lo sob estas categorias: se pura função de habitat, se consciência de território, se paradromia copernicana (é ele quem oferece a unidade de perspectiva, e não de localização, sobre esses objectos, essas ilhas, que são os seus visitantes como a montanha que vem a Maomé, os quais parecem assim girar em torno dele dando-se desse modo a ver, tal como o cosmos aparece ao rodar em volta da terra, mas apenas para serem revelados nesse espaço da loja, que os envolve, os contorna, os produz numa fricção que os dá a ver.
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